Parte I
EM BUSCA DA CULTURA POPULAR
Divide-se em trs captulos

1
A DESCOBERTA DO POVO
Foi no final do sculo XVIII e incio do sculo XIX, quando a cultura popular tradicional estava justamente comeando a desaparecer, que o "povo" (o folk) se converteu 
num tema de interesse para os intelectuais europeus. Os artesos e camponeses decerto ficaram surpresos ao ver suas casas invadidas por homens e mulheres com roupas 
e pronncias de classe mdia, que insistiam para que cantassem canes tradicionais ou contassem velhas estrias. Novos termos so um timo indcio do surgimento 
de novas idias, e naquela poca comeou-se a usar, principalmenie na Alemanha, toda uma srie de novos termos, Volkslied, por exemplo; "cano popular". J. G. Herder 
deu o nome de Volkslieder aos conjuntos de canes que compilou em 1774 e 1778. Volksmarchen e Volkssage so termos do final do sculo XVIII para tipos diferentes 
de "conto popular". H Volksbuch, palavra que se popularizou no incio do sculo XIX, depois que o jornalista Joseph Grres publicou um ensaio sobre o assunto. Seu 
equivalente ingls mais prximo  o tradicional chap-book (livreto de baladas, contos ou modinhas). H Volkskunde (s vezes Volkstumskunde), outro termo do incio 
do sculo XIX que se pode traduzir por "folclore" (folklore, palavra cunhada em ingls em 1846). H Volkspiel (ou Volkschauspie), termo que entrou em uso por volta 
de 1850. Palavras e expresses equivalentes passaram a ser usadas em outros pases, geralmente um pouco mais tarde do que na Alemanha, Assim, Volkslieder para os 
suecos eram folkviser, para os italianos canti popolari, para os russos narod-nyrpesni, para os hngaros npdalok.1 pg.31 poesia nos costumes dos povos nos tempos 
antigos e modernos. Seu principal argumento era que a poesia possura outrora uma eficcia (lebendigen Wirkung), depois perdida. A poesia tivera essa ao viva entre 
os hebreus, os gregos e os povos do norte em tempos remotos. A poesia era tida como divina. Era um "tesouro da vida" (Schatz des Lebens), isto , linha funes prticas. 
Herder chegou a sugerir que a verdadeira poesia faz parte de um modo de vida particular, que seria descrito posteriormente como "comunidade orgnica", e escreveu 
com nostalgia sobre povos "que chamamos selvagens (Wilde), que muitas vezes so mais morais do que ns". O que parecia estar implcito no seu ensaio  que, no mundo 
ps-renascentista, apenas a cano popular conserva a eficcia moral da antiga poesia, visto que circula oralmente,  acompanhada de msica e desempenha funes 
prticas, ao passo que a poesia das pessoas cultas  uma poesia para a viso, separada da msica, mais frvola do que funcional. Conforme disse seu amigo Goethe, 
"Herder nos ensinou a pensar na poesia como o patrimnio comum de toda a humanidade, no como propriedade particular de alguns indivduos refinados e cultos".2
A associao da poesia ao povo foi ainda mais enftica na obra dos irmos Grimm. Num ensaio sobre o Nibelungenlied, Jakob Grimm observou que o autor do poema era 
desconhecido, "como  usual em todos os poemas nacionais e assim deve ser, porque eles pertencem a todo o povo". A autoria era coletiva: "o povo cria" (das Volk 
dichtet). Num epigrama famoso, ele escreveu que "toda epopia deve escrever a si mesma" (jedes Epos muss sich selbst dichten). Esses poemas no eram feitos: como 
rvores, eles simplesmente cresciam. Por isso, Grimm considerou a poesia popular uma "poesia da natureza" (Natur-poesie).3
As idias de Herder e dos Grimm tiveram enorme influncia. Surgiram coletneas e mais coletneas de canes populares nacionais.* Para citar apenas algumas das mais 
famosas, uma coletnea de byliny, ou baladas russas, foi publicada em 1804 sob o nome de um certo Kirsha Danilov; a coletnea Arnim-Brentano de canes alems, Des 
Knaben Wunderhorn, baseou-se na tradio oral e folhetos impressos, e foi publicada em partes entre 1806 e 1808; a coletnea Afzelius-Geijer de baladas suecas foi 
recolhida da tradio oral em Vstergotland e publicada em 1814; as baladas srvias editadas por Vuk Stefanovic pg.32  Karadzic foram publicadas pela primeira vez 
em 1814 e mais tarde ampliadas; e as canes finlandesas de Elias Lonnrot, coletadas da tradio oral e organizadas numa epopia, a Kalevala, foram publicadas em 
1835.
Os pases mediterrnicos retardaram-se nesse movimento, e um famoso editor ingls, tradicionalmente considerado um pioneiro, na verdade no o foi. Thomas Percy, 
clrigo de Northamptonshire, publicou as suas Reliques of English Poetry ("Relquias da poesia inglesa") em 1765. Essas "relquias" (reliques), como as denominou 
com uma ortografia deliberadamente arcaica, incluam uma srie de baladas famosas, tais como Chevy Chase, Barbara Allen, The Earl of Murray e Sir Patrick Spence. 
Percy (que era um tanto esnobe e mudou o sobrenome de "Pearcy" para Percy, a fim de reivindicar uma ascendncia nobre) no achava que as baladas tivessem alguma 
relao com o povo, mas que eram compostas por menestris com alto status nas cortes medievais. Contudo, as Reliques foram interpretadas, de Herder em diante, como 
uma coletnea de canes populares, recebidas entusiasticamente na Alemanha e outros lugares.4
Embora existissem os cticos, a viso da natureza da poesia popular segundo Herder e Grimm se tornou ortodoxa rapidamente. O grande poeta-historiador sueco Erik 
Gustav Geijer empregou a expresso "poesia da natureza", sustentou a autoria coletiva das baladas suecas e referiu-se com nostalgia aos dias em que "todo o povo 
cantava como um nico homem" (et helt folk sng som en man).5 Da mesma forma, Claude Fauriel, estudioso francs que editou e traduziu a poesia popular dos gregos 
modernos, comparou as canes populares a montanhas e rios, e utilizou a expresso "posie de Ia nature".6 Um ingls de gerao anterior assim resumiu a tendncia:

A balada popular ...  resgatada das mos do vulgo para obter um lugar entre as colees do homem de gosto. Versos que poucos anos atrs eram considerados dignos 
somente da ateno das crianas so agora admirados por aquela simplicidade natural que outrora recebeu o nome de grosseria t vulgaridade.7

Alm da cano popular, outras formas de literatura popular tambm passaram a ser elegantes. Lessing colecionava e apreciava o que chamou de Bilder-reimen ("versos 
para imagens"), em outras palavras, panfletos satricos alemes. O poeta Ludwig Tieck era um entusiasta de livros populares de contos alemes e fez suas verses 
pessoais de dois deles. Os quatro filhos de Aymon e A bela Magelone. Tieck escreveu: pg.33

O leitor comum no deve fazer pouco das estrias populares (Volksromane) que so vendidas nas ruas por velhinhas a um ou dois groschen, pois Siegfried de cornos, 
Os filhos de Aymon, Duque Ernst e Genoveva tm uma maior inventividade autntica e so mais simples e muito melhores do que os livros atualmente em voga.8

Joseph Grres, em seu ensaio sobre o tema, expressou uma admirao semelhante pelos livretos populares. Havia tambm o conto popular transmitido por tradio oral. 
Vrios volumes de contos populares foram publicados na Alemanha antes do aparecimento, em 1812, da famosa coletnea dos irmos Grimm.9 Os Grirnm no empregaram o 
termo "conto popular", dando ao livro o nome de Kinder- und Hausmrchen ("Contos infantis e domsticos"), mas acreditavam de fato que essas estrias exprimiam a 
natureza do "povo", e a elas acrescentaram dois livros de contos histricos alemes (Sagen). O exemplo dos Grimm logo foi seguido em toda a Europa. Georg von Gaal 
publicou em 1822 a primeira coletnea em alemo de contos populares hngaros. No os coletou no campo, mas em Viena, com os hussardos de um regimento hngaro, cujo 
coronel, amigo de Von Gaal, ordenou aos seus homens que pusessem por escrito quaisquer estrias que conhecessem.10 Na Noruega e na Rssia, foram publicadas duas 
coletneas de contos particularmente famosas: Norske Folk-Eventyr, de P. C. Asbjornsen e J. Moe (1841), que inclua a estria de Peer Gynt, e Narodnye russkii skazki, 
de A. N. Afanasiev (1855 em diante). Finalmente, havia a "pea popular", categoria que inclua o teatro de bonecos sobre Fausto que inspirou Lessing e Goethe; a 
tradicional pea sua sobre Guilherme Tell, estudada por Schiller antes de escrever a sua; os autos sacramentales espanhis descobertos com entusiasmo pelos romnticos 
alemes; os mistrios ingleses publicados por William Hone, e os alems publicados por F. J. Mone.11
Esse interesse por diversos tipos de literatura tradicional era, ele mesmo, parte de um movimento ainda mais amplo, que se pode chamar a descoberta, do povo. Houve 
a descoberta da religio popular. Arnim, aristocrata prussiano, escreveu: "para mim, a religio do povo  algo extremamente digno de respeito". J o aristocrata 
francs Chateaubriand, em seu famoso livro sobre o "gnio da cristandade", incluiu uma discusso sobre as dvotions populaires, a religio no oficial do povo, que 
via como uma expresso da harmonia entre religio e natureza.12 Houve ainda a descoberta, das festas populares. Herder, que nos anos 1760 morava em Riga, ficou impressionado 
com a festa de vero da noite de so Joo.13 Goethe ficou entusiasmado com o Carnaval romano, que presenciou em 1788 e interpretou como uma festa pg.34 "que o povo 
d a si mesmo".14 Esse entusiasmo levou  pesquisa histrica e a livros como o de Joseph Strutt, sobre esportes e passatempo, o estudo de Giustina Renier Michiel, 
sobre os festejos venezianos, e o livro de Snegirov, sobre os feriados e cerimnias do povo russo.15 Houve a descoberta da msica popular. No final do sculo XVIII, 
V. F. Trutovsky (um msico da corte) publicou algumas canes populares russas, juntamente com as respectivas melodias. Nus anos 1790, Haydn fez arranjos com canes 
populares escocesas. Em 1819, um decreto do governo ordenou que as autoridades locais da Baixa ustria, em nome da Sociedade de Amigos da Msica, procedessem  coleta 
de melodias populares. Uma coletnca de canes populares da Galcia, publicada em 1833, traz as melodias e os versos.16 Houve tentativas de se escrever a histria 
do povo, ao invs da histria do governo: na Sucia, Erik Geijer, que j editara canes populares, publicou A histria do povo sueco. Embora dedicasse a maior parte 
do livro s polticas dos reis, a histria de Geijer realmente trazia captulos separados sobre "a terra e o povo". Pode-se dizer o mesmo do historiador tcheco Frantisek 
Palack (que na juventude se dedicara a coletar canes populares na Morvia) e sua Histria do povo tcheco, das obras histricas de Jules Michelet (admirador de 
Herder, tendo planejado, certa vez, uma enciclopdia de canes populares) e de Macaulay, cuja History of EngIand ("Histria da Inglaterra"), publicada em 1848, 
contm o famoso terceiro captulo sobre a sociedade inglesa no final do sculo XVII, baseado em parte nas baladas impressas que tanto apreciava.17 A descoberta da 
cultura popular teve um impacto considervel nas artes. De Scott a Pchkin, de Victor Hugo a Sndor Petfi, os poeta imitavam a balada. Compositores inspiravam-se 
na msica popular, como a pera de Glinka, Uma vida para o Czar, de 1836. O pintor Courbet inspirou-se em xilogravuras populares, mas at 1850 no se desenvolveu 
um interesse srio pela arte popular, talvez porque os objetos artesanais populares, at ento, no tivessem sido ameaados pela produo em massa.18
As ilustraes mais marcante das novas atitudes em relao ao povo talvez provenham dos viajantes, que agora iam em busca no tanto de runas antigas, mas de maneiras 
e costumes, de preferncia os mais simples e incultos. Foi com esse propsito que. no incio dos anos 1770, o padre italiano Alberto Fortis visitou a Dalmcia, e 
no relato de suas viagens dedicou um captulo ao modo de vida dos morlacchi, sua religio e supersties, suas canes, danas e festas. Como disse Fortis. "a 
inocncia e a liberdade natural dos sculos pastoris ainda sobrevivem em Morlacchia". A certa altura, ele comparou os morlacchi pg.35 aos holentotes. Samuel Johnson 
e James Boswell percorreram as ilhas ocidentais da Esccia "para especular", segundo as palavras de Johnson, "sobre os resqucios da vida pastoril", para procurar 
"costumes primitivos", para entrar nas choupanas dos pastores, ouvir a gaita de foles e encontrar gente que ainda no falava ingls e usava a capa escocesa. Em Auchnasheal, 
Boswell observou ao dr. Johnson que "era quase a mesma coisa que estar numa tribo de ndios", pois os aldees "eram to escuros e de aparncia to rstica quanto 
qualquer selvagem americano.19
Enquanto Johnson e Boswell observavam os habitantes das Terras Altas com distanciamento, outros membros das classes superiores tentaram se identificar com o povo, 
atitude que parece ter ido mais longe na Espanha. A duquesa de Alba como Maja, de Goya, lembra-nos que os homens e mulheres da nobreza espanhola por vezes vestiam-se 
como as classes trabalhadoras de Madri. Eles mantinham relaes amigveis com os atores populares. Uma observao da poca sobre as festas populares nos sugere que 
os nobres tambm participavam dessas ocasies: "um fidalgo que, seja por curiosidade ou gosto depravado, assiste aos divertimentos do vulgo, geralmente  respeitado, 
desde que seja mero espectador e mostre-se indiferente s mulheres".20
 por causa da amplitude do movimento que parece razovel falar na ocorrncia da descoberta da cultura popular nessa poca; Herder de fato usou a expresso "cultura 
popular" (Kultur des Volkes), em contraste com a "cultura erudita" (Kultur der Gelehrten). Antes disso, estudiosos de antigidades j tinham descrito costumes populares 
ou coletado baladas impressas em broadside-.* O que h de novo em Herder, nos Grimm e seus seguidores , em primeiro lugar, a nfase no povo, e, em segundo, sua 
crena de que os "usos, costumes, cerimnias. supersties, baladas, provrbios, etc." faziam, cada um deles, parte de um todo, expressando o esprito de uma nao. 
Nesse sentido, o tema do presente livro foi descoberto  ou ter sido inventado?  por um grupo de intelectuais alemes no final do sculo X VIII.21
Por que a descoberta da cultura popular ocorreu naquele momento? O que significava exatamente o povo para os intelectuais? Naturalmente, no existe uma resposta 
simples a tal pergunta. Alguns dos descobridores eram, eles mesmos, filhos de artesos e camponeses: Tieck era filho de um cordoeiro; Lnnrot, de um alfaiate de 
aldeia; William Hone era livreiro; Vuk Stefanovic Karadzic e Moe, filhos de camponeses. A maioria deles, porm, provinha das classes superiores, para as quais o 
povo era um misterioso Eles, descrito em termos de tudo o que os seus descobridores no eram (ou pensavam que no eram): o povo era natural, simples, analfabeto, 
instintivo, irracional, enraizado na tradio e no solo da regio, sem nenhum sentido de individualidade (o indivduo se dispersava na comunidade). Para alguns intelectuais, 
principalmente no final do sculo XVIII, o povo era interessante de uma certa forma extica; no incio do sculo XIX, em contraposio, havia um culto ao povo, no 
sentido de que os intelectuais se identificavam com ele e tentavam imit-lo. Como disse o escritor polons Adam Czarnocki, em 1818, "temos de ir at os camponeses, 
visit-los em suas cabanas cobertas de palha, participar de suas festas, trabalhos e divertimentos. Na fumaa que paira sobre suas cabeas, ainda ecoam os antigos 
ritos, ainda se ouvem as velhas canes".22
Houve uma srie de razes para esse interesse pelo povo nesse momento especfico da histria europia: razes estticas, razes intelectuais e razes polticas.
A principal razo esttica era a que se pode chamar de revolta contra a "arte". O "artificial" (como "polido") tornou-se um termo pejorativo, e "natural" (artless), 
como "selvagem", virou elogio. Pode-se ver essa tendncia com bastante clareza nas Reliques de Percy. Ele gostava dos velhos poemas  que publicou 

(*) Broadside: folha impressa de um s lado, usualmente colocada  numa parede. pg.36
porque tinham aquilo que Percy chamou de "uma simplicidade agradvel e muitos encantos naturais", qualidades que sua gerao considerava ausentes na poesia da poca. 
Seus outros gostos literrios revelam mais sobre as suas preferncias. A primeira publicao de Percy foi a traduo de um romance chins e alguns fragmentos de 
poesia chinesa, escritos numa poca (sugeriu ele) em que os chineses viviam num estado de "natureza selvagem".23 Sua publicao seguinte foi Five Pieces of Runic 
Poetry Translated from the Icelandic ("Cinco peas de poesia rnica traduzidas do islands"), com um prefcio que chamava a ateno para a inclinao que aquela 
"raa valorosa e inculta", os europeus do norte, demonstrava em relao  poesia. Em suma, como outros homens do seu tempo, Percy era um entusiasta pelo extico, 
fosse da China, da Islndia ou, como Chevy Chase, da Nortmbria. O apelo do extico estava do fato de ser selvagem, natural, livre das regras do classicismo.24 Esse 
ltimo ponto foi, talvez, de importncia especial para o mundo germanfono, visto que J. G. Gottsched, professor de poesia em Leipzig, vinha naquele momento estabelecendo 
as leis para a literatura, insistindo em que os dramaturgos deviam observar as supostas unidades aristotlicas de tempo, espao e ao. O crtico suo J. J. Bodmer, 
que pg.37 publicou em 1780 uma coletnea de baladas inglesas e subias tradicionais, revoltou-se contra Gottsched. Goethe tambm se rebelava contra as regras do 
teatro clssico e escreveu' "A unidade espacial parecia to opressora como uma priso, as unidades de tempo e ao como pesados grilhes sobre nossa imaginao".25 
O teatro de bonecos e peas de mistrio suscitavam interesse justamente por ignorarem essas unidades. Assim se deu com Shakespeare, traduzido por Tieck e Geijer 
e objeto de um ensaio de Herder.
O apelo esttico do inculto, no clssico e (para empregar uma outra palavra cara  poca) "primitivo" talvez se veja mais marcadamente na popularidade de "Ossian".26 
Ossian, ou Oisan MacFinn, era um bardo galico (dito do sculo III) cujas obras foram "traduzidas" pelo poeta escocs James Macpherson nos anos 1760. De fato, a 
traduo no foi uma traduo, como veremos adiante. Os poemas ossinicos tiveram uma enorme popularidade por toda a Europa no final do sculo XVIII e incio do 
sculo XIX. Foram traduzidos para uma dezena de lnguas europias, do espanhol ao russo. Nomes como "Oscar" e "Selma" devem sua difuso a eles, a abertura A caverna 
de Fingal de Mendelssohn (escrita em 1830, depois de uma viagem s Hbridas), foi inspirada por eles; Herder e Goethe, Napoleo e Chateaubriand estavam entre os 
seus admiradores entusisticos. Pode-se perceber o que os leitores da poca viram em Ossian pela "dissertao crtica" sobre ele, escrita por Hugh Blair, amigo de 
Macpherson. Blair descreveu Ossian como um Homero celta. "Ambos se distinguem pela simplicidade, sublimidade e brilho." Admirava particularmente os poemas enquanto 
exemplos da "poesia do corao", e sugeriu que "muitas condies daqueles tempos que chamamos de brbaras so favorveis ao esprito potico" porque os homens de 
ento eram mais imaginativos. Foi com essas idias na mente que Herder coletou canes populares em Riga, Goethe na Alscia, e Fortis na Dalmcia.27
Em suma, a descoberta da cultura popular fazia parte de um movimento de primitivismo cultural no qual o antigo, o distante e o popular eram todos igualados. No 
surpreende que Rousseau gostasse de canes populares, as quais lhe pareciam tocantes por serem simples, ingnuas e arcaicas, pois ele foi o grande porta-voz do 
primitivismo cultural da sua gerao. O culto ao povo veio da tradio pastoril. Boswell e Johnson foram s Hbridas para ver uma sociedade pastoril; por volta de 
1780, pequenas figuras de porcelana de camponeses noruegueses uniram-se a pastorinhas de Dresden, entre os objetos decorativos das salas de visitas elegantes.28 
Esse movimento foi tambm uma reao contra o Ilummismo, tal como se caracterizava em Voltaire: pg.38 contra o seu elitismo, contra seu abandono da tradio, contra 
sua nfase na razo. Os Grimm, por exemplo, valorizavam a tradio acima da razo, o surgido naturalmente acima do planejado conscienteniente, os instintos do povo 
acima dos argumentos dos intelectuais. A revolta contra a razo pode ser ilustrada pelo novo respeito  religio popular e pela atrao dos contos populares relacionados 
ao sobrenatural.
O Iluminismo no era apreciado em certas regies, como, por exemplo, na Alemanha e na Espanha, por ser estrangeiro e constituir mais uma mostra do predomnio francs. 
Na Espanha, o gosto pela cultura popular em fins do sculo XVIII era um modo de expressar oposio  Frana. A descoberta da cultura popular estava intimamente associada 
 ascenso do nacionalismo. No no caso de Herder, que era um verdadeiro europeu, e mesmo um verdadeiro cidado do mundo; sua coletnia de canes populares inclua 
tradues do ingls e francs, do dinamarqus e espanhol, do leto e esquim. Os Grimm tambm publicaram baladas dinamarquesas e espanholas, e mostraram um interesse 
considervel pela cultura popular dos eslavos. Entretanto, as coletneas posteriores de canes populares muitas  vezes eram de inspirao e sentimento nacionalista, 
A publicao de Wunderhorn coincidiu com a invaso da Alemanha por Napoleo. Um dos seus dois editores, Achim von Arnim, pretendia que fosse um livro de canes 
para o povo alemo, com a finalidade de estimulara conscincia nacional, e o estadista prussiano Siein recomendou-o como um elemento auxiliar para libertar a Alemanha 
dos franceses."
Na Sucia, a coletnea de canes populares de Afzelius-Geijer inspirou-se na "sociedade gtica" fundada em 1811, Seus membros adotavam nomes "gticos" e trabalhavam 
para o renascimento das antigas virtudes suecas ou "gticas". Liam juntos, em voz  alta, velhas baladas suecas. O que impulsionou a formao dessa sociedade, que 
era ao mesma tempo literria, arqueolgica, moral e poltica, foi o impacto sofrido pelos suecos com a perda da Finlndia para a Rssia em l809.31
Os finlandeses estavam bastante satisfeitos por escaparem aos suecos, mas tambm temiam a Rssia: eles no queriam perder a sua identidade para o Imprio russo. 
J tinham comeado a estudar sua literatura tradicional no final do sculo XVIII; um dos primeiros estudos importantes sobre o folclore  a dissertao em latim 
de H. G. Porthan sobre a, poesia finlandesa, publicada em 1766. Depois de 1809, esse estudo do passado nacional assumiu significado mais poltico. Como disse um 
intelectual finlands na poca: pg. 39

Nenhuma ptria pode existir sem poesia popular. A poesia no  seno o cristal em que uma nadou a lida de pode se espelhar:  a fonte que traz  superfcie; o que 
ha de verdadeiramente original na alma do povo."32

Foi nessa atmosfera poltico-cultural que Lnnrot se encontrou ao ir para a universidade de Turku. Seu professor incenlivou-o a coletar canes populares, e dessa 
coleta surgiu o Kalevaiu.33
Tambm em outros lugares o entusiasmo pelas canes populares fazia parte de um movimento de autodefinio e libertao nacional. A coletnea de canes populares 
gregas de Fauriel foi inspirada pela revolta grega de 1821 contra os turcos. O polons Hugo Kolataj esboou um programa de pesquisa sobre a cultura popular quando 
estava na priso, onde ficou recluso depois de participar do levante de Ksciusko contra a ocupao russa; e a primeira coletnea, o Lud Polski ("O povo polons"), 
de Gotebiowski, coincidiu com a revolta de 1830. Niccol Tommaseo, o primeiro colecionador italiano importante de canes populares, era um exilado poltico, devido 
 sua oposio ao domnio austraco sobre a Itlia. O belga Jan-Frans Willems, editor de canes populares flamengas e holandesas,  considerado o pai do movimento 
nacionalista flamengo, o Vlaamse Beweging. Mesmo no caso da Esccia, onde era tarde  ou cedo  demais para se falar em libertao nacional, Walter Scott declarou 
que tinha compilado o Minsfrelsy of the Scottish Border ("Cancioneiro dos menestris da fronteira escocesa") com o objetvo de ilustrar "os traos particulares" 
da personalidade e costumes escoceses.34 A descoberta da cultura popular foi, em larga medida, uma srie de movimentos "nativistas". No sentido de tentativas organizadas 
de sociedades sob domnio estrangeiro para reviver sua cultura tradicional. As canes folclricas podiam evocar um sentimento de solidariedade numa populao dispersa. 
privada de instituies nacionais tradicionais. Como colocou Arnim, elas "uniam um povo dividido" (er sammelte sein zerstreutes Volk).35 De maneira bastante irnica, 
a idia de uma "nao" veio dos intelectuais e foi imposta ao "povo" com quem eles queriam se identificar. Em 1800, artesos e camponeses tinham uma conscincia 
mais regional do que nacional.
 claro que o significado poltico da descoberta da cultura popular no foi o mesmo nas vrias partes da Europa, e a discusso um pouco mais detalhada de um exemplo 
particular pode ilustrar a complexidade do problema:  o caso dos srvios. As canes folclricas dos srvios foram publicadas por Vuk Stefanovic  Karadzic, a figura 
de destaque na cultura do que hoje  a lugoslvia. Karadzic vinha de uma famlia de camponeses, na regio servia que ento estava sob domnio pag. 40 turco. Ele 
participou do levante srvio de 1804 contra os turcos e, quando a revolta foi esmagada, em 1813, ele atravessou a fronteira do Imprio Habsburgo e foi para Viena, 
onde encontrou Jernej Kopitar, um esloveno que era censor imperial para as lnguas eslavas. Kopitar queria que Viena se convertesse no centro da cultura eslava, 
de modo que os srvios. tchecos e outros pudessem preferir a ustria  Rssia. Ele conhecia a coletnea de canes populares de Herder e mostrou-a a Karadzic, oriundo 
de uma famlia de cantores, que decidiu seguir o exemplo de Herder. Para o seu livro, ele no coletou, mas rememorou as canes (mais tarde, Karadzic realmente passou 
a colet-las). Publicou a primeira parte de sua antologia em 1814, com um prefcio em estilo pastoral comentando as canes "tais como so cantadas naturalmente 
e sem artifcios por coraes inocentes simples", dizendo que as tinha aprendido quando, "na condio mais feliz conhecida pelos mortais, eu cuidava de carneiros 
e cabras". O prefcio foi provavelmente escrito com um ar irnico em relao ao leitor culto; Karadzic ficava indignado quando se referiam a ele como inculto pastor 
de cabras, e aspirava a um grau honorrio numa universidade alem. Ele no estava reagindo contra o rococ, o classicismo ou a cultura letrada; de fato, acreditava 
que. "entre tudo que o homem pode ter inventado neste mundo, nada pode se comparar  escrita", e redigiu uma gramtica servia, um livro de ortografia e um dicionrio. 
No prefcio, o que ele disse realmente a srio foi sobre sua esperana de que a coletnea de canes agradasse a "todos os srvios que amam o esprito nacional da 
sua raa". Publicar canes servias, inclusive algumas sobre elementos fora-da-lei, nos anos 1814-5, poca do esmagamento do levante srvio, era um gesto poltico. 
No surpreende que Metternich no permitisse a Karadzic publicar sua coletnea ampliada de canes em Viena, temendo que o governo turco a julgasse subversiva; a 
segunda edio, de falo. foi publicada em Leipzig, em 1823-4.36
A maioria dos exemplos citados at agora deve ter mostrado que a descoberta da cultura-popular ocorreu principalmente nas regies que podem ser chamadas de periferia 
cultural do conjunto da Europa e dos diversos pases que a compem. A Itlia. Frana e Inglaterra h muilo tempo tinham literaturas nacionais e lnguas literria. 
Seus intelectuais, ao contrrio, digamos, dos russos ou suecos, vinham se afastando das canes e contos populares. A Itlia, Frana e Inglaterra haviam investido 
mais do que outros pases no Renascimento. Classicismo e Ilunnismo, e portanto demoraram mais a abandonar os valores desses movimentos. Como j existia uma lngua 
literria padronizada, a descoberta do dialeto era um elemento divisor. No surpreende pag. 41 que, na Gr-Bretnha, fossem principalmente os escoceses a redescobrir 
a cultura popular, ou que o movimento do cancioneiro tardasse na Frana, surgindo com um breto, Villemarqu, cuja coltetnea Barzaz Braiz foi publicada em 1839.39 
Tambm na Itlia. Tommaseo, o equivalente de Villemarqu, vinha da Dalmcia, e quando o folclore italiano foi estudado mais seriamente pela primeira vez, no  final 
do sculo XIX, as contribuies mais importantes se realizaram na Siclia. Quanto  Espanha, a descoberta do folclore nos anos 1820 no se iniciou no centro, em 
Castela, mas na periferia, na Andaluzia. Tambm na Alemanha, a iniciativa veio da periferia: Herder e Arnim tinham nascido a leste do Elba. 
        Assim, existiram boas razes literrias e polticas para que os intelectuais europeus descobrissem a cultura popular no momento em que o fizeram. No entanto, 
a descoberta podia ter se mantido puramente literria, no fosse a existncia de uma tradio mais antiga de interesse pelos usos e costumes que remontava  Renascena, 
mas que vinha tomando um colorido mais sociolgico no sculo XVIII. A diversidade de crenas e prticas em diferentes partes do mundo vinha se mostrando cada vez 
mais fascinante, como um desafio para revelar a ordem sob o aparente caos. Do estudo dos usos e costumes no Taiti ou entre os iroqueses, foi apenas um passo para 
que os intelectuais franceses passassem a olhar para os seus prprios camponeses, que julgavam quase igualmente distantes em suas crenas e estilo de vida. O interesse 
no implicava necessariamente uma simpatia, como mostra largamente o uso frequente de termos como "preconceito" ou "superstio", Assim, em 1790, o abade Grgoire 
elaborou e distribuiu um questionrio sobre os costumes e dialetos regionais franceses. Em 1794, J. de Cambry visitou Finistre para observar os usos e costumes 
da regio. Sua atitude em relao ao povo era ambivalente. Como bom republicano, achou os bretoes atrasados e supersticiosos, mas no pde deixar de admir-los pela 
sua simplicidade, hospitalidade e imaginao.38 Na Esccia, em 1797, uma comisso da Sociedade das Terras Altas fez circular um questionrio com seis ilens sobre 
a poesia galica tradicional. Em 1808, J. A, Dulaure e M. A. Mangourit, membros (como Cambry) da recente Academia Cltica (Interessada na histria antiga da Frana), 
montaram um questionrio com 51 itens sobre os costumes populares franceses: festas, "prticas supersticiosas", medicina popular, canes, jogos, contos de fadas, 
locais de peregrinao, irmandades religiosas, feitiarias e o calo dos mendigos. "O povo se dedica a alguma prtica supersticiosa especifica durante o Carnaval?", 
perguntavam eles, ou "existe alguma mulher conhecida como feiticeira, pg 42  adivinha ou velha que viva disso? Qual  a opinio do povo sobre elas?"39 Quando a 
Itlia estava sob domnio napolenico, um questionrio com cinco perguntas do mesmo gnero foi enviado a professores e funcionrios pblicos, pedindo informae; 
sobre festividades, costumes, "preconceitos e supersties" e "e as chamadas canes nacionais" (o termo canti popolari  ainda no comeara a ser usado). Poucos 
anos depois, em 1818. um funcionrio local, Michele Placucci, publicou um livro sobre os "costumes e preconceitos" dos camponeses da Romagna, um estudo regional 
inspirndo no questionrio italiano e baseado nas respostas a ele. Placucci incluiu canes e provrbios populares no livro, citado na pgina de rosto como "uma obra 
srio-jocosa", sugerindo que ele sentia um certo embarao em publicar algo sobre um assunto ainda no totalmente respeitvel.40 Um embarao semelhante pode se ocultar 
por trs de pseudnimos adotados por uma srie de escritores sobre cultura popular nesse perodo e mesmo depois: "Otmar", "Chodokowski", "Merton", "Kazak Lugansky" 
e, mais recentemente, "Saintyves" e "Davenson".41
A cultura popular de 1800 foi descoberta, ou pelo menos assim julgavam os descobridores, bem a tempo. O tema de uma cultura em desaparecimento, que deve ser registrada 
antes que seja tarde demais,  recorrente nos textos, fazendo com que eles lembrem a preocupao atual com as sociedades tribais em extino. Assim, Herder, em Riga, 
estava preocupado com a retrao da cultura popular let antes do avano da cultura germnica. "Otmar" coletou contos populares nos montes Harz num momento que (escreveu 
o autor) eles "estavam caindo rapidamente no esquecimento".

Em cinqenta ou cem anos, a maioria dos velhos contos populares que ainda sobrevivem aqui e ali ter desaparecido... ou ter sido levada para as montanhas solitrias 
pela ao sistemtica das plancies e cidades, cujos hiibitantes participam cada vez mais ativamente dos acontecimentos polticos da nossa poca de transformaes. 
42

Sir Walter Scott declarou que coletava baladas da fronteira a fim de "contribuir um pouco para a histria do meu rinco natal; os traos caractersticos da sua personalidade 
e costumes esto diariamente se fundindo e dissolvendo entre os da sua irm e aliada". Ele acreditava que seus contemporneos estavam ouvindo o que realmente constitua 
a trova do ltimo menestrel. Ele descreveu um cantor como "talvez o ltimo dos nossos professos recitadores de baladas", e um outro como "provavelmente o exemplo 
realmente ltimo do ofcio de menestrel propriamente dito". Arnim achava que a cano popular estava condenada pg.43 nada em toda a Europa; na Frana, escreveu 
ele, as canes folclricas haviam desaparecido quase por completo antes da Revoluo Francesa. "Tambm na Inglaterra, as canes populares so cantadas apenas raramente; 
na Itlia, elas decaram em pera, graas a um desejo vazio por inovao; mesmo na Espanha, muitas canes se perderam.43 Na Noruega, poucos anos depois, um colecionador 
comparou o pas a "uma casa em chamas", com o tempo exato para salvar as baladas antes que fosse tarde demais.44 Sem dvida, Arnim estava exagerando, mas as outras 
testemunhas, que falavam de regies que conheciam bem, merecem ser levadas a srio. Mesmo antes da revoluo industrial, a cultura popular tradicional vinha sendo 
minada pelo crescimento das cidades, a melhoria das estradas e a alfabetizao. O centro invadia a periferia. O processo de transformao social deu aos descobridores 
uma conscincia ainda maior da importncia da tradio.
Se a descoberta no ocorresse quando ocorreu, seria praticamente impossvel escrever o presente livro ou qualquer outro estudo sobre a cultura popular dos incios 
da Europa moderna. Temos uma enorme dvida para com os homens que tiraram tudo o que conseguiram da casa em chamas, coletando, editando e descrevendo. Somos os seus 
herdeiros. No entanto precisamos encarar criticamente essa herana, que inclui, alm de bons textos e idias fecundas, corruptelas e interpretaes errneas.  muito 
fcil continuar a ver a cultura popular atravs das lentes romnticas e nacionalistas dos intelectuais do incio do sculo XIX.
Comecemos com a herana dos textos. Uma das glrias dessa era de descobrimentos foi o fato de que os antiqurios eram poetas, e os poetas eram antiqurios. O belga 
Jan-Frans Willems e o italiano Nicol Tommaseo eram poetas e editores de cancioneiros populares. Em Portugal, Almeida Garrett foi ao mesmo tempo o revitalizador 
da poesia portuguesa e o redescobridor de baladas populares. Scott era poeta e igualmente antiqurio, e combinou esses dois interesses ao escrever The Lay of lhe 
Last Minstrel ("A Trova do ltimo menestrel". 1805), sobre o tema de uma cultura em desaparecimento. Geijer, que, pelo menos na juventude, fora poeta e historiador, 
escreveu o anlogo sueco do poema de Scott, Den Sista Skalden ("O ltimo escaldo", 1881).
Essa combinao entre poetas e antiqurios tem uma sria desvantagem, do ponto de vista do historiador. Os poetas so criativos demais para serem editores confiveis. 
Pelos moldes modernos, que vieram a ser aceitos nesse setor no final do sculo XIX, a obra dos primeiros editores de poesia popular  quase escandalosa. O caso mais 
pg.44 famoso  o de James Macpherson, o descobridor do Homero celta, o bardo galico "Ossian". Nem todos os seus contemporneos partilhavam da crena de Hugo Blair 
sobre a antigidade dos poemas ossinicos; alguns, como o dr. Johnson, consideravam Macpherson um "impostor" que escrevera pessoalmente os poemas. Depois de uma 
gerao de controvrsias, a Sociedade das Terras Altas da Esccia formou uma comisso, em 1797, para investigar a autenticidade dos poemas, perguntando a ancios 
de regies remotas da Esccia se j tinham ouvido falar do pico. Nenhum ouvira; mas muitos conheciam canes sobre os mesmos heris, tais como Fion, ou "Fingal", 
e C Chulainn, canes que s vezes se pareciam muitssimo com algumas passagens de Macpherson, dados os descontos, pelo problema de se traduzir o galico medieval 
para o ingls do sculo XVIII. Em outras palavras, partes de Macpherson eram autenticamente tradicionais (se elas remontavam ao sculo III  uma outra questo), 
mas o conjunto no. A comisso declarou crer que Macpherson "completara lacunas e fornecera ligaes, inserindo passagens que no tinha encontrado, e acrescentara 
o que julgava ser dignidade e delicadeza  composio original, eliminando passagens, atenuando incidentes, refinando a linguagem ...", A avaliao dos estudiosos 
modernos  mais ou menos a mesma. Macpherson coletou canes da tradio oral, estudou os manuscritos de coletneas recentes e pode muito bem ter pensado que estava 
reunindo os fragmentos de um pico antigo, e no construindo algo novo.45
Entre Macpherson, geralmente considerado como um "falsificador", e Percy, Scott, os Grimm, Karadzic, Lnnrot e outros, geralmente considerados como "editores", existe 
uma diferena mais de grau do que de natureza. O paralelo mais bvio  com Lnnrot, que construiu o pico nacional finlands a partir de canes, que coletara, e 
acrescentou passagens de sua prpria lavra. Ele se justificou assim:

Finalmente, quando nenhum outro cantor podia mais se comparar a mim quanto ao conhecimento de canes, eu decidi que tinha o mesmo direito que, na minha opinio, 
a maioria dos outros cantores se reservava livremente para si, a saber, o direito de dar um arranjo s canes conforme parecesse mais adequado a elas.46

Segundo o estudioso da Antigidade Clssica F. A. Wolf, que escreveu no final do sculo XVIII, foi exatamente o que Homero fizera com o material tradicional da Ilada 
e da Odissia. De forma semelhante, em l845 Jacob Grimm perguntou a Karadzic se as canes sobre o prncipe Marko Kraljevic poderiam ser reunidas para montar um 
pico.47 pg.45
Muitos editores, em pequena escala, seguiram o mtodo de Macpherson e Lnnrot. Percy "aprimorou" suas baladas, conforme confessou:

Com algumas ligeiras correes ou acrscimos, destacou-se um sentido mais bonito ou mais interessante, e isso de maneira to natural e fcil que o editor dificilmente 
conseguiria se convencer a satisfazer a vaidade de apresentar  uma pretenso formal ao aprimoramento: mas ele deve se declarar culpado da acusao de ocultar sua 
participao pessoal nas emendas sob algum ttulo geral como "cpia moderna".
Essas emendas nem sempre eram "ligeiras". No caso de Edom o'Gordon (Child 178), sobrevive uma carta de Percy, criticando o final da balada (onde o marido enganado 
comete suicdio), sugerindo a omisso da estrofe e o acrscimo de um verso que insinuasse o enlouquecimento do marido.48 Algo nas baladas parece ter sido um estimulo 
 inveno. John Pinkerton tentou fazer passar Hardyknute, composio de sua autoria, como uma balada tradicional coligida da tradio oral em Lanarkshire, e sir 
Walter Scott reescreveu (se  que no comps) Kinmont Willie. Arnim e Brentano no chegaram a esse ponto, mas "aprimoraram" e expurgaram canes de sua famosa coletnea.49 
Os editores de contos populares seguiam os mesmos princpios dos editores de baladas. Para o seu famoso livro de Mrchen, os Grimm coletaram estrias da tradio 
oral em Hesse, pedindo aos seus colaboradores que as enviassem "sem acrscimo e os chamados aprimoramentos" (ohne Zusatz und sogennante Verschnerung). No entanto 
os irmos no publicaram exatamente o que haviam encontrado. Para comear, as estrias circulavam em dialeto, e os Grimm traduziram-nas para o alemo, criando, em 
conseqncia, uma obra-prima da literatura alem. Mas o que eu quero ressaltar  o que se perdeu e o fato de que na Alemanha daquela poca a lngua das classes mdias 
era literalmente diferente da dos artesos e camponeses. Assim, as verses originais das estrias teriam sido ininteligveis para quem se destinava o livro. A traduo 
era imprescindvel, mas necessariamente envolvia distores. Algumas estrias foram expurgadas pois, de outra forma, teriam chocado seus novos leitores. As idiossincrasias 
individuais do relato foram atenuadas, de modo a dar um estilo uniforme  coletnea. Onde as diferentes verses do mesmo conto se complementavam, os Grimm as amalgamaram 
(de modo bastante justificvel, tendo em vista sua teoria de que quem criava no era o indivduo, mas "o povo"). Finalmente, um estudo das diferenas entre a primeira 
edio dos Mrchen e outras posteriores mostra que os Grimm emendaram os contos, tentando dar-lhes pg.46   um tom mais oral. Por exemplo, inseriram frmulas tradicionais 
em Branca de Neve que iam desde "era uma vez" (Es war einmul) at "eles viveram felizes para sempre" (sie lebten glcklich bis an ihr Ende). O "aprimoramento" saia 
pela porta, mas voltava pela janela.50
No caso da msica folclrica, so particularmente evidentes as alteraes feitas pelos descobridores e colecionadores ao transmitir o que tinham encontrado a um 
novo pblico. A msica tinha de ser escrita, visto que no havia outra forma de preserv-la, e escrita segundo um sistema de convenes que no fora feito para tal 
tipo de msica. Ela era destinada a um pblico de classe mdia com piano e ouvido afinado para as canes de Haydn, e posteriormente Schubert e Schumann: assim, 
como confessam as pginas de rosto dessas publicaes, ela tinha de ser "harmonizada". V. E. Trutovski publicou uma coleo de msicas populares russas no final 
do sculo XVIII; como explica um escritor moderno, "ele no s alterou deliberadamente o esquema meldico... em alguns casos, como tambm introduziu sustenidos e 
bemis em afinaes modais diferentes, e deu-lhes acompanhamentos harmnicos".51 William Chappell publicou uma coletnea de "rias nacionais inglesas" (canes populares) 
no incio do sculo XIX; nessas verses impressas, "foram impostos padres harmnicos acadmicos a melodias populares, suprimidas as antigas modalidades, igualadas 
as afinaes irregulares". Ele tambm omitiu as letras, sempre que fossem "grosseiras demais para publicao".52
Assim, ler o texto de uma balada, de um conto popular ou at de uma melodia numa coletnea da poca  quase como olhar uma igreja gtica "restaurada" no mesmo perodo. 
A pessoa no sabe se est vendo o que existia originalmente, o que o restaurador achou que existia originalmente, o que ele achou que devia ter existido, ou o que 
ele achou que devia existir agora. Alm dos textos e edifcios, tambm as festas estavam sujeitas a "restauraes". Algumas festas tradicionais remanescentes existiam 
de forma inalterada desde os tempos medievais, os incios dos tempos modernos ou mesmo antes, mas outras no. O Carnaval de Colnia foi revivido em 1823, o Carnaval 
de Nuremberg, em 1843, o Carnaval de Nice, em meados do sculo XIX.53 A tradio do Eisteddfod no sobrevivera  poca dos druidas; foi revivida por um maom de 
Glamorgan, Edward Williams (Iolo Morgannwg), que formou em 1819 o Circulo Gorsedd, em Carmarthen, e os trajes foram desenhados mais tarde por sir Hubert Herkomer.54
Dos intelectuais do incio do sculo XIX herdamos no s textos e festas, mas tambm idias, algumas fecundas, outras enganosas. A principal crtica a ser feita 
s idias dos descobridores  a de que no pg.47 discriminaram o suficiente. No distinguiram (ou, pelo menos, no com bastante agudeza) o primitivo do medieval, 
o urbano do rural, o campons do conjunto da nao.55 Percy descreveu em termos muito semelhantes os antigos poemas chineses, os poemas irlandeses e as baladas de 
fronteira. Amontoou-os juntos por no serem clssicos, sem se importar com as diferenas entre eles. Herder chamou a Moiss, Homero e os autores do Minnesang alemo 
de "cantores do povo". Claude Fauriel dissertava sobre a "poesia popular" como a de Homero, Dante, a dos trovadores e as baladas da Grcia e da Srvia. Os intelectuais 
desse perodo gostavam de comparar as sociedades camponesas que iam visitar com as sociedades tribais sobre as quais tinham lido   um paralelo freqentemente esclarecedor, 
mas s vezes enganoso. Quando Boswell e Johnson estiveram em Glenmorison, nas Hbridas, ofenderam o anfitrio: "seu orgulho parece ter ficado muito ferido quando 
nos surpreendemos pelo fato de possuir livros". Eles estavam ansiosos demais em ver os habitantes das Terras Altas como "selvagens americanos".56
Herder, os Grimm e seus seguidores insistiram em trs pontos especficos sobre a cultura popular, os quais foram de grande influncia, mas tambm altamente questionveis. 
Talvez seja til identificar esses pontos, chamando-os de "primitivismo", "comunitarismo" e "purismo".
O primeiro ponto se referia  poca das canes, estrias, festividades e crenas que haviam descoberto. Eles tendiam a situ-las num vago "perodo primitivo" (Vorzeit) 
e a acreditar que as tradies pr-crists tinham sido transmitidas sem alteraes ao longo de milhares de anos.  indubitvel que algumas delas so muito antigas; 
o Carnaval italiano, por exemplo, pode muito bem ter se desenvolvido a partir da Saturnal romana, e a commedia dell'arte a partir das farsas clssicas. Contudo, 
por falta de provas precisas, essas hipteses no podem ser comprovadas. O que se pode comprovar e que em poca relativamente recente, entre 1500 e 1800, as tradies 
populares estiveram sujeitas a transformaes de todos os tipos. O modelo das casas rurais podia se alterar, ou um heri popular podia ser substitudo por outro 
na "mesma" estria, ou ainda o sentido de um ritual podia se modificar, enquanto a forma se mantinha mais ou menos a mesma. Em suma, a cultura popular de fato tem 
uma histria.57
O segundo ponto era a famosa teoria dos irmos Grimm acerca da criao coletiva: das Volk dichtet. O valor dessa teoria residia no fato de chamar a ateno para 
uma diferena importante entre as duas culturas; na cultura popular europia, em 1800, o papel do indivduo pg.48 era menor e o papel da tradio, o passado da 
comunidade, era maior do que na cultura erudita ou de minoria da poca. Como metfora, a frase dos Grimm  elucidativa. Tomada ao p da letra, porm, ela  falsa; 
os estudos dos cantores populares e contadores de estrias mostraram que a transmisso de uma tradio no inibe o desenvolvimento de um estilo individual.58
O terceiro ponto pode ser chamado de "purismo". De quem  a cultura popular? Quem  o povo? Ocasionalmente, o povo era definido como todas as pessoas de um determinado 
pas, como na imagem de Geijer sobre todo o povo sueco a cantar como um s indivduo. Na maioria das vezes, o termo era mais restrito. O povo consistia nas pessoas 
incultas, como na distino de Herder entre Kultur der Gelehrten e Kultur des Volkes. s vezes, o termo se restringia ainda mais: Herder escreveu uma vez que "o 
povo no  a turba das ruas, que nunca canta nem compe, mas grita e mutila" (Volk heisst nicht der Pbel auf den Gassen, der singt und dichter niemals, sondern 
schreit und verstmmelt).59 Para os descobridores, o povo par excellence compunha-se dos camponeses; eles viviam perto da natureza, estavam menos marcados por modos 
estrangeiros e tinham preservado os costumes primitivos por mais tempo do que quaisquer pessoas. Mas essa afirmao ignorava importantes modificaes culturais e 
sociais, subestimava a interao entre campo e cidade, popular e erudito. No existia uma tradio popular imutvel e pura nos incios da Europa moderna, e talvez 
nunca tenha existido. Portanto, no h nenhuma boa razo para se excluir os moradores das cidades, seja o respeitvel arteso ou a "turba" de Herder, de um estudo 
sobre cultura popular.
A dificuldade em se definir o "povo" sugere que a cultura popular no era monoltica nem homognea. De fato, era extremamente variada. A tarefa do prximo capitulo 
ser a de discutir algumas dessas variedades e a unidade que subjaz a elas. pg.49
